Há um mês, estreava a terceira e última temporada de Dark, deixando muitos fãs da série órfãos dessa que foi considerada a "melhor original Netflix" segundo uma pesquisa por voto popular realizada pelo site Rotten Tomatoes. Para aqueles que apenas assistiram a série para passar o tempo e não se preocuparam em criar teorias ou entender a árvore genealógica dos personagens, o mundo pode ter voltando ao normal, mas, para os apaixonados pela obra alemã — com certa dificuldade em desapegar — o seriado continua rendendo diversos debates pela internet. 

Sendo assim, já respondendo a pergunta do título: não, Dark não é uma cópia! Inclusive, os assuntos e a forma como eles são tratados ao longo das temporadas foram abordados de maneira bem original. No entanto, nada surgiu do zero e, existem sim, dois filmes com características semelhantes que podem ter servido de referência para Jantsje Friese e Baran Bo Odar, os criadores da série.


Antes de mais nada, vale a pena deixar aqui algumas ressalvas:

A primeira é que Dark e Stranger Things não tem nenhum tipo de relação! Embora algumas pessoas insistam em comparar os conteúdos, a única coisa que os dois têm em comum é a aura dos anos 80 e a alusão aos livros de Stephen King. 

A segunda é que os conteúdos deste artigo são especulativos, ou seja, nenhuma das inspirações citadas foram confirmadas, mas é bem interessante prestar atenção em como elas realmente fazem sentido.

A terceira é que a pessoa que vos escreve é uma GRANDE fã de Dark e não tem nenhuma intenção em desmerecer a série.

A quarta, e mais importante, é ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS DE DARK!!!

Agora, com avisos dados, vamos aos fatos:

Uma produção alemã, que utiliza o tempo como enredo principal e acontece em três ciclos para evitar a morte de pessoas queridas para os protagonistas (ou dele próprio), cheia de conflitos familiares, com uma velhinha misteriosa que parece estar em todos os lugares e saber de tudo antes dos personagens principais, cuja montagem divide a tela ao meio para mostrar duas ações diferentes acontecendo no mesmo instante e ainda possui uma trilha sonora "aleatória", misturando músicas sombrias e alegres em momentos que não parecem adequados. Soou parecido? 

Essa é a trama do filme Corra, Lola, Corra, de 1999 e dirigido por Tom Tykwer. Embora o longa tenha como motivação um assalto, as semelhanças não param por aí. Tanto o filme quanto a série, começam nos apresentando imagens dos persongens da história enquanto ouvimos narrações curiosas sobre questionamentos comuns da humanidade: "de onde viemos?", "para onde vamos?", "o ontem, o hoje e o amanhã". Além disso, logo de início, ambos apresentam cartelas pretas com frases de pensadores que tentam explicar a origem das obras - T.S. Elliot, em Corra, Lola, Corra e Albert Einstein, em Dark.




Muito parecido? Calma que ainda tem mais!

Vocês lembram na segunda temporada de Dark, quando a Hannah vê o Mikkel criança e tem um déjà vu por achá-lo parecido com seu marido Michael (afinal, eles são a mesma pessoa)? Há uma cena bem parecida no longa de 1999 quando um policial olha Lola nos olhos e reconhece a expressão da jovem de um outro momento no tempo. E sim, também existem realidades alternativas no filme! Ou, pelo menos, é o que parece. Na trama, todas as vezes que Lola passa por uma pessoa na rua, vemos suas histórias, porém, em cada linha temporal as narrativas mudam. Por fim, não custa nada lembrar da pergunta que Hannah constantemente faz a Ulrich, "você me ama?", frase que também é repetida do filme em contexto bem parecido. São tantas sequências equivalentes que poderíamos ficar horas comentando sobre isso, mas, quem quiser conferir por conta própria, o longa está disponível na HBO Go.

Eis que chegamos a outra possível inspiração do seriado alemão: Donnie Darko, clássico cult de 2001 e dirigido por Richard Kelly. Para começar, a primeira coisa que remete a série ao longa é o nome, mas essa é a menor das coincidências. 

Novamente, assistimos a mais uma história que utiliza o tempo como enredo principal (sendo que a atuação do tempo, no filme, é bem parecida com a apresentada na série) para evitar a morte de pessoas queridas do protagonista, com conflitos familiares e uma velhinha misteriosa que parece saber de tudo antes dos personagens principais e ainda possui a montagem embalada por uma trilha sonora "aleatória", mas com letras extremamente visuais.



Talvez, neste caso, a referência mais clara seja a roupa de caveira utilizada tanto por Donnie, quanto por Mikkel no momento em que ele desaparece. Contudo, ainda vale mencionar os livros sobre viagem no tempo, os sonhos, presságios e déjà vus de outros momentos do tempo, o nome Gretchen (que não é nem um pouco comum), a contagem regressiva para o apocalipse, a base bíblica, os cientistas que aparecem em quadros de TV explicando algo que pode ser relacionado ao contexto da obra, os protagonistas que são considerados perturbados por tomarem remédios psiquiátricos e, principalmente: o fato de ambas as histórias se passarem em cidades pequenas onde todos estão conectados por um elo muito maior. 

Também é importante notar que Jonas, assim como Donnie, percebeu que sua existência era um erro e aceitou que a sua morte era necessária para quebrar o ciclo e libertar aqueles que foram sugados para dentro da confusão. Quem se interessar e quiser investigar mais o assunto, o canal Pipocando fez um vídeo bem aprofundado sobre a sincronia entre a produção da Netflix e o clássico nos anos 2000.

Dessa forma, embora os criadores de Dark tenham afirmado que usaram a série Twin Peaks como principal referência, é impossível não admitir que eles não beberam de outras fontes para elaborar o roteiro e até a estética do seriado. Importantíssimo: isso não tem nenhum problema! E mais: a experiência de assistir a essas obras já procurando pelas referências para depois debater é muito mais divertida. É muito satisfatório para nós, fãs, quando autores se inspiram em bons materiais para criar um conteúdo tão completo diferenciado. A série da Netflix concebeu a ideia de um mundo origem, trouxe os ciclos de 33 anos, dissecou as teorias da física e do determinismo, trabalhou, como nunca feito antes, a relação familiar através das gerações e muito mais. Isso sem contar com a fotografia deslumbrante, trilha sonora impecável e atuações monstruosamente boas. 

Logo, Dark tem sim, diversas alusões, mas, ela merece todo o mérito por tê-las aplicado de modo inédito e surpreendentemente bem planejado.


Sic mundus creatus est. 

Erit Lux.

Sobre o Autor

Marcelle Souza

Enquanto uns me chamam de Dory do Procurando Nemo, outros dizem que eu nasci para comandar um quartel. Sempre apaixonada pela sétima arte, transformei o Cinema em profissão. Hoje, sinto que minha missão na Terra é indicar os melhores conteúdos para todo mundo se encantar com a cultura tanto quanto eu.

Instagram: @marcellesg95

1 Comentários

  1. Nice! Adorei o artigo, deu até vontade de procurar pra assistir, nunca vi nem Twin Peaks e nem esse da Lola. Agora quando eu li a parte "tentar entender a arvore genealogica" me identifiquei! Eu teorizei loucamente sobre isso sozinho, até descobrir que existe um SITE OFICIAL! Preciso nem dizer que eu dissequei esse site até não sobrar nada, né? Hahaha! Enfim, muito bom artigo! E série incrível! 😁

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE