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Porque você NUNCA deve dizer que tem TOC (um relato pessoal)

Se, há seis anos, alguém me dissesse que eu escreveria sobre o meu TOC em um blog, eu provavelmente teria uma crise de ansiedade. Eu tinha muita vergonha por ser “errada”. Mas hoje, gostaria de aproveitar o finzinho do Setembro Amarelo, um mês no qual falamos bastante sobre transtornos mentais, para compartilhar uma experiência própria e assim, quem sabe, poder ajudar alguém. 

TOC - CAFÉ COM NET

Então, já respondendo à questão do título: você não deve dizer que tem TOC porque você não tem. É simples assim. O TOC é um transtorno que pode paralisar a vida de quem vive com isso. Não é uma característica para ser usada como desculpa: “ah, eu não consigo ver os quadros tortos, é porque eu tenho TOC”, “nossa, eu tenho TOC, gosto de tudo arrumado”, ou o pior de todos: “eu sou muito perfeccionista, é tipo TOC”.  

Não, não é. E incomoda muito ouvir as pessoas tratando o transtorno como se fosse uma característica boa. Esse termo foi extremamente banalizado, mas a verdade é que poucos entendem o que realmente acontece na cabeça de alguém que tem TOC. Então, eu vim aqui explicar. 

Lembrando que tudo o que eu vou falar é uma experiência pessoal, mas com certeza profissionais de saúde poderão explicar de uma forma mais assertiva. 

A primeira vez que eu ouvi falar sobre TOC foi durante uma novela. A personagem tinha o TOC de limpeza e lavava as mãos repetidamente porque se culpava pelo sequestro da sobrinha. Na época, eu era criança e não conseguia entender o que uma coisa tinha a ver com a outra. Até chegar na minha adolescência.  

Desde pequena eu apresentei sintomas obsessivos compulsivos

Mas o que seria isso? 

Bem, resumindo anos e anos de estudo em poucas palavras: movimentos repetitivos, repetição persistente de palavras ou ações, acumulação compulsiva... isso é até comum em determinadas fases da infância. Mas, aos 12 anos, veio a grande transformação.  

Com 12 anos eu deprimi. Tive uma depressão séria, daquelas que você começa a ter todos os piores tipos de pensamentos. Foi a partir daí que os sintomas pioraram. Isolamento social, repetição sem sentido de palavras aleatórias, vício comportamental e automutilação. Foi assim que começou.  

Mas como que funciona a cabeça da pessoa com TOC? Chega a ser engraçado se não fosse trágico. Vou tentar explicar de uma forma bem didática.  


Imagine que você tem alguma superstição, por exemplo, você tem a sua blusa da sorte. Mas você está passando por algum momento ruim da sua vida e a sua cabeça está frágil. Você começa a ter pensamentos negativos de que tudo vai dar errado. Então, você coloca a sua blusa da sorte e vive o seu dia normalmente. Se nada de ruim acontecer, a sua mente frágil vai entender que a blusa da sorte te protegeu.  

Assim, você começa a usar essa blusa sempre que você estiver inseguro. Mas a sua cabeça está frágil, você está se sentindo inseguro constantemente... o que fazer? Usar a blusa da sorte sempre, ela não pode ficar longe de você. No entanto, não dá tempo de lavar e secar, então você só repete a sua blusa da sorte.  

Em algum momento ela começa a ficar com mau-cheiro, depois ela rasga... e você continua usando a blusa da sorte. Você fica com vergonha porque as pessoas notam e te julgam.  

Você começa a ter conflitos internos: o que é melhor (ou menos pior), as pessoas julgando ou a possibilidade de coisas darem errado? Até que você perde a luta. Você se isola das pessoas, mas continua usando a blusa da sorte.  


Esse exemplo é apenas uma das formas que o TOC pode atuar. Normalmente, a pessoa não tem apenas um objeto da sorte ou apenas um “ritual” repetitivo. São vários ao mesmo tempo, o que trava a vida da pessoa.  

Os tipos de TOC mais comuns são relacionados ao medo de germes ou contaminação, lavando as mãos excessivamente; revisar diversas vezes portas, janelas, gás ou o ferro de passar roupas antes de sair de casa ou dormir; e, é claro, coisas simétricas ou em uma ordem perfeita. 

Mas QUALQUER COISA pode se transformar em um ritual. Assim como a blusa da sorte que usei como exemplo, eu tinha um canudo usado da sorte, um pedaço de madeira da sorte, uma pinça da sorte que eu usava para me machucar e por aí vai... 

A relação do TOC é uma relação de causa e consequência. “Se eu fizer isso, aquilo não vai acontecer”. “Se eu vestir essa blusa, a minha mãe não vai bater o carro”, “se eu repetir essa frase, o meu avô não vai morrer”, “se eu cortar o meu rosto, eu vou passar na prova de matemática”.  

Relações completamente absurdas, não é? Racionalmente é óbvio que uma coisa não interfere na outra. Mas quem tem TOC não está pensando racionalmente.  

Embora os meus sintomas já estivessem avançados, eu só fui diagnosticada com TOC pela primeira vez aos 16 anos. Eu nem sei quantos rituais eu tinha, consigo lembrar de pelo menos 15. Também não lembro quanto tempo eu perdia realizando cada um deles. Eu escondia de todo mundo, tinha vergonha! Nem as pessoas mais próximas de mim tinham ideia do que se passava na minha cabeça.

Quando você tem TOC, não existe a possibilidade de não realizar os rituais. Na sua mente, você se torna completamente responsável pela vida das pessoas ao seu redor e, caso você não cumpra alguma das ações, algo de muito ruim vai acontecer e a culpa vai ser sua.  

Como eu disse, com 16 anos eu comecei a tratar o meu TOC, mas só com 25 eu me sinto quase livre dele. Não completamente, porque quando a nossa cabeça não está legal, os pensamentos ruins voltam. Mas, hoje, eu sei “escolher as minhas batalhas”. 

Como que eu me tratei? 

Terapia. Muita terapia. E remédios. De início eu não queria de jeito nenhum. Nem a terapia, muito menos os remédios. Troquei de tratamento três vezes antes de encontrar uma psiquiatra que me convencesse de que, às vezes, medicamentos são necessários.  

E que bom que ela conseguiu me convencer!  

A analogia que eu sempre faço com relação ao tratamento é que, antes, os pensamentos negativos surgiam na minha cabeça como gritos que ecoavam por todo o meu corpo. Agora, quando esses pensamentos aparecem, eles são sussurros, que eu finjo não escutar. 

Pois bem, meus queridos leitores, resolvi escrever esse texto por dois motivos.   

O primeiro, para mostrar que o TOC não deve ser tratado de forma banal ou cômica como muitos fazem hoje em dia. Não diga que você tem TOC se você não tem. Isso machuca quem realmente está lutando contra esse problema. 

O segundo motivo (e mais importante) é para você que tem TOC. Ou para você que sabe que tem alguma coisa errada na sua cabeça, mas não sabe o que é... Chegou a reconhecer algum desses sintomas em você? Essa relação de causa e consequência é frequente na sua vida? Então está na hora de procurar ajuda profissional para você não viver dentro dos seus medos. 

E acredite em mim: não existe nada mais libertador que o resultado desse tratamento. 

Vamos espalhar essa mensagem para que cada vez mais pessoas entendam e se livrem desse transtorno.

Ver perfil completo do Autor - Marcelle Souza

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