Você já ouviu falar em Tutu? Não, não a comida... E em Corpo-Seco? Não? Mas, provavelmente você conhece a Cuca, o Saci e o Curupira, não é?

As Lendas Folclóricas representam o conjunto de estórias e contos narrados pelo povo que são transmitidas de geração em geração por meio da oralidade. E é claro que o Brasil tem inúmeras entidades folclóricas, cujas aventuras já foram retratadas um milhão de vezes nas telas de conteúdos audiovisuais, certo? Errr... mais ou menos.

Realmente! Essas lendas já foram contadas e recontadas muitas vezes, mas a TV e o cinema ainda não entenderam como aproveitar os contos da nossa cultura para lucrar. Das adaptações famosas, apenas aquelas relacionadas ao Sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, tiveram destaque.


Até que chega a Netflix e a série “Cidade Invisível”!



A série, original da plataforma de streaming e dirigida por Carlos Saldanha (a mente por trás de A Era do Gelo e Rio) conta a história de um detetive que se encontra preso em uma investigação de assassinato que o coloca no meio de uma batalha entre o mundo humano e o mundo dos seres místicos.

Imagine se aquele menino que te pediu dinheiro no sinal fosse o Saci Pererê? Ou se o morador de rua cadeirante, na verdade, estivesse apenas escondendo os pés para trás? Ou se a cantora com voz hipnotizante do bar que você foi na semana passada, na verdade fosse a Iara, Mãe das Águas?

É assim que Cidade Invisível trata o folclore: com realismo! De forma que, verdadeiramente comecemos a pensar sobre as pessoas que andam a nossa volta. Não vemos apenas criaturas mágicas, vemos pessoas reais que, assim como o resto do sociedade, tiverem que se adaptar às mudanças que a vida trouxe.

E daí que vem o brilho da série: os personagens. Tirando os vilões (que não poderiam ser mais clichês e repetitivos), todas as figuras são interessantes, cativantes e bem trabalhadas.

O protagonista Eric (interpretado por Marco Pigossi) é remoído por culpa e dúvidas, mas completamente sem senso de responsabilidade para com sua avó (sim, ele tem uma avó!) e sua filha (a melhor atriz da série, essa menina vai longe).

O Saci (Wesley Guimarães) rouba qualquer cena em que aparece! Ele é engraçado, cativante, inteligente e, com certeza, o personagem com mais referências às lendas originais.

A Cuca de Alessandra Negrini é diferente de tudo o que você já viu. Por mais que a caracterização da personagem sofra com clichês que o audiovisual criou das feiticeiras, a atriz não permite que sua interpretação caia na mesmice e mantém a curiosidade do público durante todos os episódios. A única coisa que pode ter faltado para melhorar ainda mais sua participação foram as poções mágicas.

Iara (Jessica Córes), Tutu (Jimmy London) e o Boto (Victor Sparapane) são personagens que deixam aquele gostinho de quero mais sempre que suas cenas acabam.

Agora, falando sobre o Curupira, temos um problema. A interpretação de Fábio Lago está excelente, seu olhar de desprezo pelo ser humano e de falta de esperança no futuro penetra no espectador, porém, talvez ele não fosse a melhor pessoa para viver a lenda do menino dos pés voltados para trás.

Sim, estamos falando sobre apropriação cultural e whitewhashing. É inegável que o maior erro de Cidade Invisível seja retratar todas as histórias originárias da cultura indígena e não ter uma pessoa para representar esse grupo da sociedade. Essa falha é gravíssima!

Assim como fazer com que a história se passe no Rio de Janeiro. A visão da cidade está ótima - diferente dos estereótipos que estamos acostumados em filmes hollywoodianos, com planos aéreos e paisagens de praia; o Rio mostrado pela série é uma cidade real, aquela onde pessoas trabalham, saem em bares à noite, tem mazelas e violência - mas nada além da atração do público internacional justifica a escolha da capital como locação para o enredo.

Em tempos que vemos o desmatamento na Amazônia chegar ao seu recorde e queimadas desenfreadas no Pantanal, levar a história para um desses lugares apenas acrescentaria à produção.


Dessa forma, esse é o saldo de Cidade Invisível:

Uma série cheia de acertos: uma abertura inteligente e significativa, um elenco genial, uma trilha sonora envolvente com instrumentos tipicamente brasileiros (incluindo a melhor versão de Sangue Latino já criada), um ritmo perfeito, ótimos cliffhangers, uma montagem ativa que participa da história através de flashbacks e flashfowards, uma direção assertiva e uma trama intrigante.

Contudo que também possuí erros: com algumas cenas triviais previsíveis, uma fotografia com pouco apelo visual, um vilão fraco porém palpável e o erro imperdoável com relação à população indígena.


No entanto, mesmo com essas críticas, vale, sim, muito a pena assistir a produção da Netflix!

Primeiro, porque é um conteúdo nacional de qualidade e cabe a nós dar audiência e incentivar esse tipo de iniciativa, principalmente levando em consideração que a série também será conhecida no exterior.

Segundo, porque apenas com público, a história poderá voltar para uma segunda temporada e se redimir com a população indígena. Precisamos confiar nas produções brasileiras, principalmente, quando elas mostram que querem acertar e esse parece ser o caso!

Por fim, porque Cidade Invisível desperta uma curiosidade quase infantil sobre as lendas folclóricas. Isso porque, não apenas os mitos conhecidos que são retratados, mas também alguns que poucos escutaram falar. Você terminará a série querendo pesquisar mais sobre o assunto e essa vontade de continuar aprendendo sobre a cultura nacional já mostra o diferencial da produção.

Cidade Invisível termina sua temporada de estreia com saldo positivo em questão técnica e negativo em relação à parte social. É uma série que tem potencial para ser a produção nacional da Netflix mais conhecida internacionalmente, então, precisamos dar um voto de confiança e sermos o exemplo de audiência!


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