Todas as artes são responsáveis por construir e representar realidades sociais. Com o cinema não seria diferente. O audiovisual não só reproduz o nosso universo, como também o modifica, (re)construindo-o através de discursos.

Para contar uma história, não basta apenas uma boa ideia inicial, o processo é um exercício de construção de imagens, personagens e sentimentos. Depois do filme ir para a tela grande, está nas mãos dos espectadores reagirem a ele das mais diversas formas possíveis.

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Mas de onde nasce toda essa estrutura narrativa?


A princípio, os grandes nomes da construção de roteiro são Joseph Campbell, com o clássico que “criou” A Jornada do Herói, Christopher Vogler, com o manual da A jornada do escritor, e até Aristoteles, que mudou o conceito de contar uma história com sua Poética.

Notou algo em comum entre nesses autores? Sim: todos homens!

Uma das constantes críticas à Jornada do Herói vem do fato da teoria ser ligada apenas a personagens masculinos, tramadas por homens para impor sua dominação e dar pouca relevância à diversidade feminina.

Deste modo, após perceber a ausência da análise de personagens mulheres, a autora Kim Hudson resolveu escrever sobre o assunto no livro A promessa da Virgem: Escrevendo histórias do despertar criativo, espiritual e sexual feminino (tradução livre), porém, passa a chamar as heroínas de virgens.

Para ela, esta figura consegue representar os diferentes níveis de relacionamentos feminino: pai e mãe, outras mulheres, homens, crianças, sociedade e, finalmente, suas próprias naturezas verdadeiras.

As características iniciais da personagem são estereotipadas: ela é boa, gentil, agradável ou prestativa. No entanto, através da jornada, ela aprende a redefinir seus valores e criar um verdadeiro eu.

E quais são as diferenças entre o herói e a virgem?


Os padrões de história da virgem e do herói são, em muitos aspectos, opostos um do outro.

Embora ambas sejam histórias de aprendizado, a trama feminina é sobre conhecer seu sonho por si mesma e realiza-lo, enquanto a do herói é sobre enfrentar o perigo mortal deixando sua rotina e provando que ele pode existir para um objetivo maior.

A virgem muda seus valores ao longo da trama para ser totalmente ela mesma. O herói está focado no desenvolvimento de suas habilidades para mudar o mundo por conta própria.

Outra grande distinção entre as histórias da virgem e do herói é o cenário!

A virgem se transforma dentro de seu ambiente familiar onde as pessoas assumem que sabem o que é melhor para ela. A história do herói se passa em uma terra distante – e quanto mais distante, melhor.

O mundo da virgem representa as partes de uma comunidade que precisa de mudança, enquanto o ambiente do herói representa o que deve ser preservado de bom na sociedade.

A virgem não é voluntária nesta aventura; ninguém a está encorajando a agir – de fato, todos estão contrários a ela. Ao contrário do herói, que se oferece para combater o mal.

Então, a virgem começa sua história sem uma noção de quem é, dando muita energia às necessidades e opiniões dos outros. Seu fim ideal está ligado à sua necessidade de auto realização.

Por outro lado, o herói começa com um forte senso de autopreservação, recusando-se a se envolver. Por fim, ele cumpre seu dever de servir aos outros através do auto sacrifício.

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Filmes como, Para Sempre Cinderela, A Outra, O Segredo de Brokeback Mountain, Billy Elliot, As Virgens Suicidas, Rocky e Penetras Bons de Bico, para citar apenas alguns, todos seguem essa jornada arquetípica.

Nenhum desses protagonistas está salvando uma comunidade porque nenhum deles é Herói. Eles são virgens que se realizam!

Ah, e importante: as virgens teorizadas por Hudson incluem mulheres e homens. Assim como as mulheres podem ser heróis, os homens podem ser virgens.

Dito isso, é preciso responder à questão inicial do artigo: à primeira vista, não existe uma “Jornada da Heroína”.

Como foi comentado no texto sobre a representatividade feminina no cinema, quando uma protagonista é inserida em uma jornada como a única personagem forte no meio de vários homens, essa mulher está apenas sendo masculinizada. Portanto, continua sendo “um herói”, no masculino mesmo.

É claro que a trajetória de uma personagem feminina no cinema pode envolver “salvar o mundo”. É claro, também, que resumir todos os filmes criados a dois modelos clássicos seria simplório demais.

No entanto, uma coisa precisa ser admitida: assim como a vida real, os desafios enfrentados pelas personagens nas telas de cinema precisam passar por alguns níveis a mais.

A verdadeira Jornada da Heroína, portanto, só é vista quando as camadas são vasculhadas. Quando ela muda ela mesma e torna-se sua própria heroína, abre caminhos para que a sociedade evolua a partir de suas ações. E essa é a melhor forma de salvar o mundo.



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