Pela primeira vez na história, duas mulheres foram indicadas à categoria de Melhor Direção do Oscar.

Em 93 anos de premiação, apenas cinco mulheres tinham tido seus trabalhos reconhecidos pela Academia, sendo que somente uma - repetindo, UMA - ganhado o Oscar de Melhor Filme



Esse cenário completamente díspar não irá mudar do dia para a noite, no entanto, o ano de 2021 adicionou mais uma diretora a lista de vencedoras. Isso porque Emerald Fennell e Chloé Zhao são, não apenas a sexta e sétima cineastas indicadas à categoria de Melhor Direção, mas Nomadland, longa de Zhao, venceu o principal prêmio da noite.

Então, nada melhor do que exaltar as obras dessas mulheres e explicar porque seus filmes merecem, sim, toda a atenção da indústria cinematográfica.



Bela Vingança


Café com Net - Emerald Fennell

Cheia de traumas do passado, Cassie (vivida pela brilhante Carey Mulligan) frequenta bares todas as noites e finge estar bêbada. Quando homens mal-intencionados se aproximam com a desculpa de que vão ajudá-la, Cassie entra em ação e se vinga dos predadores que tiveram o azar de conhecê-la.

Sinopse genérica? Talvez! Tema repetido? Com certeza! Mas a genialidade de Bela Vingança está em como essa história é contada: nos detalhes minuciosos no roteiro e design criados pela diretora Emerald Fennell nesse seu primeiro longa.

A princípio, um espectador desavisado pode chegar ao filme esperando uma chuva de sangue em cenas cheias de violência. Expectativa essa que é quebrada logo nos primeiros minutos da trama de forma sarcástica, porém singular.

Bela Vingança conquista o público já na sequência inicial, mas não deixa a qualidade diminuir durante o restante da história. Isso justifica as cinco indicações ao Oscar que o filme recebeu. E, embora algumas pessoas (homens) não tenham entendido o grande buzz ao redor do filme, vale comentar que essa trama foi sim, claro, criada para todos os públicos, mas em todas as cenas é possível perceber momentos que servem como uma piscadela para aquele que é verdadeiramente o público principal do longa: as mulheres.

Por isso, não é apenas o machismo que é abordado no filme, mas os vários formatos como ele aparece na sociedade: o motorista que permite um homem levar uma mulher inconsciente para a sua casa, homens cruéis sejam eles os famigerados "heterotops" ou "esquerdomachos", mulheres que se acham responsáveis pela vida dos maridos, falta de sororidade entre amigas, frases que o público feminino escuta todos os dias de sua vida desde seu nascimento, cultura do estupro, feminicídio e vários outros...

Fennell domina tão bem sua obra que transita entre gêneros que poderiam não fazer o mínimo sentido juntos. O espectador passa por terror, suspense, comédia romântica, drama e tudo, claro, sendo acompanhado por trilha sonora, fotografia e design de produção.

Inclusive, destaque para esses dois últimos tópicos, que, juntos, criam uma estética única pra o filme, mostrando como os homens possuem uma imagem estereotipada das mulheres e evidenciando que o trauma vivido pela personagem principal é apenas mais um no meio de um mundo tão violento para as mulheres.

Para completar o pacote, Bela Vingança não seria nada sem sua atriz principal. Carey Mulligan mais uma vez brilha como uma das melhores atrizes de sua geração. Ela representa uma mulher completamente quebrada por dentro, mas que não permite que a sociedade enxergue suas vulnerabilidades. Todo o seu sofrimento, ou até raros momentos de felicidade, transparecem em seus olhos no meio de falas sarcásticas e sorrisos falsos. Cassie grita durante o filme inteiro, mas ninguém escuta a sua voz.

Por fim, não é possível ignorar alguns pontos mais fracos do longa. Entre eles, o exagero de músicas em momentos os quais o silêncio daria mais peso à cena e, principalmente, a suspensão da descrença. São vários os pontos que o espectador pode se pegar pensando “mas isso nunca aconteceria na vida real...” e, de fato, algumas questões não explicadas parecem ser furos no roteiro.

Mesmo assim, por apresentar tantas nuances em uma trama muito fora do padrão, dar um fim terrivelmente realista (por um lado) e bem utópico (por outro), Emerald Fennell e sua Bela Vingança venceram o merecidíssimo prêmio de Melhor Roteiro Original!


Nomadland


Café com Net - Chole Zhao

Completamente oposto ao longa anterior, Nomadland, dirigido, escrito, produzido e montado por Chloé Zhao, é daquelas obras que não possuem a típica divisão em três atos (início, meio e fim), sendo, assim, um grande estudo de personagem e sua vida. Dessa forma, a cineasta mostra que nem sempre é preciso um grande acontecimento na trama para criar um filme inesquecível.

Mas sobre o que é a história do Melhor Filme do Ano? Simples, pelo menos à primeira vista: após o colapso econômico de uma cidade na zona rural, Fern (Frances McDormand) entra em sua van e parte para a estrada, vivendo uma vida fora da sociedade convencional como uma nômade moderna.

Baseado em um livro homônimo, o longa fala sobre assuntos extremamente pertinentes no mundo atual: desde a crise econômica à solidão e senso de coletividade. Tudo isso, de forma intimista, delicada e extremamente realista - tanto que existem apenas dois atores profissionais em todo o longa: os outros, são nômades que aparecem para contar um pouco sobre suas escolhas de vida.

Assim, com uma mistura de documentário e ficção, a diretora dá voz a pessoas reais que possuem histórias para contar e precisam compartilhá-las. Mas o espectador nunca saberá quando esses momentos são improvisados ou se já estavam no roteiro.

Além disso, o filme é bem político. Sempre há uma cena ou outra que desmistifica a famosa ideia do "sonho americano". Seja pelo nome da empresa responsável pelo infortúnio de Fern: Empire (ou Império); ou pelo discurso de um dos nômades sobre como os trabalhadores são tratados como “burros de carga” vendo-se, ao fundo, o tremular da bandeira estadunidense. Sorte de encontrar o momento certo ou não, o take reflete os detalhes que chamaram atenção no trabalho da diretora.

Zhao, ao mesmo tempo que possui todo o controle de seu filme nas mãos, permite que a vida das personagens aconteça em ritmos próprios. Sua câmera segue Fern, sempre mostrando o céu ao seu redor e lembrando que ela não é a única naquela situação. É Fern que pertence àquela imensidão, não o contrário.

E isso fica bem claro quando o espectador vê a diferença de cores e enquadramento nas cenas gravadas dentro de residências. O que era colorido, quente e vasto, perde sua beleza e ganha um senso claustrofóbico.

Essa sensação de aprisionamento, inclusive, está presente em todo o longa através da interpretação delicada de Frances McDormand. A atriz abdica do glamour de Hollywood e constrói uma personagem sem brilho, triste, confinada em suas lembranças, mas, ao mesmo tempo, doce, gentil e até engraçada. É possível perceber quando Fern está prestes a chorar, mas nenhuma lágrima cai de seus olhos. 

A montagem e a trilha sonora completam esse pacote imersivo, alternando pontos de leveza e quebras temporais, sem a necessidade de grandes exposições ao público.

Talvez esse seja o motivo de Nomadland ter feito tanto sucesso. Dificilmente, em tempos normais, uma história tão “simples” como essa seria a vencedora da noite. Contudo, após as mudanças que o mundo enfrentou - e continua enfrentando nos últimos meses-, valorizar os detalhes de uma rotina parece mais essencial que nunca.

Sendo assim, ao tratar de temas sobre luto, solidariedade, ciclos de vida, desigualdade social e, principalmente, metamorfoses, Nomadland foi a obra perfeita para receber o prêmio de Melhor Filme do Ano, sendo, assim, o segundo filme dirigido por uma mulher a ser consagrado pela Academia.

Que, nos próximos anos, esse deixe de ser um marco e passe a ser apenas o normal.

Marcelle Souza é redatora criativa do Café com Net, colaborando como a principal crítica de cinema da revista. Formada em cinema e jornalismo, seu ponto mais forte é comunicação e descoberta de tendências do mundo da arte. alert-info


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